O amor já esfriou e na humanidade não mais acredito

21:57:00



Se ser feliz é simples, nós que complicamos o modo de agir da felicidade,  e nisso não há dúvida. Mas depois de tantas intervenções ao ambiente que nos rodeia, trazendo desiquilíbrios e catástrofes sem avisos prévios, conseguir dar um riso sincero é uma tarefa árdua, tão quanto plantar arroz numa terra seca onde não chove há décadas.

Eu poderia ser feliz quando acordasse cedo pela manhã e tomasse uma respiração profunda, só para energizar meu corpo sonolento, porém isso não dá, porque o ar carrega odores vindos dos carros, que buzinam fora da minha janela, eu tusso para expulsar os gases nocivos que queimam minha garganta.

E pela tarde, saindo do trabalho, eu poderia ser feliz, se eu conseguisse  andar na rua da minha casa sem medo de ter meus bens matérias roubados por meninos de treze anos, seria bom me sentir tranquila numa avenida movimentada, porque é péssimo olhar para os lados com o pressentimento que minha morte vai chegar, e chegar em grande estilo, nada menos que montada em uma moto, com um cara  desconhecido usando um capacete preto, que me dará um tiro porque eu não quis subir na sua garupa. Ou talvez, o traumatismo craniano que fosse chegar, quando o final fechasse e eu na faixa de pedestres atravessando com o coração a mil, uma moça bêbada  não respeitasse o transito  jogasse  dela o carro em cima de mim.

Á noite, eu queria tanto, mas tanto mesmo, ser feliz ao ficar olhando para o céu escuro e ver pequenas luzes cintilando sobre a cabeça da humanidade, me deixando perder em devaneios sobre a criação magnifica disso tudo, só que eu não posso fazer isso, já que a poluição é tamanha, com suas nuvens gigantescas que escondem as estrelas, e a lua, coitada, eu soube que morreu asfixiada.

Quero cantar, contudo, não posso, já que o imposto sobe tanto que dinheiro não sobra para comprar cordas novas para o meu violão, e cantar sem acordes, não dá o mesmo sentimento de calma, que preciso tanto para afugentar os fantasmas debaixo da minha cama.

Minha barriga dói, tenho fome, então abro a geladeira e não tem nada além de água fria em duas garrafas de plástico lilás. O armário da cozinha está vazio, a conta de luz subiu tanto, a conta de água subiu também, assim o meu salario mínimo não deu para comprar as verduras.

Ligo a TV para me distrair, e o telejornal mostra noticia triste e mais noticia triste, depois mostra o resultado dos jogos de futebol do fim de semana, ai eu esqueço meus problemas por segundos e me alegro com o gol do atacante do time vermelho e preto, que ganha milhões e não se importa com minha alegria por seu bom desempenho. Então vem o comercial esbanjando carros, celulares, viagens ao exterior, mulheres magras com lingeries, sabe, isso faz eu me sentir um lixo, definitivamente um lixo! Pois sei que o congestionamento lá fora grita que não cabem mais carros nas cidades, porém o Governo melhora as condições de compra-los, eu sei que não preciso disso, mas eu quero, talvez só assim eu seja feliz, porque o homem do comercial está sorrindo muito ao dirigir pela madrugada silenciosa.

Quero um celular novo, porque o meu não basta, e joga-lo no quintal não tem problema, se afetar o solo não me importo, que se dane todo mundo que precisa de água do lençol freático! Eu quero o celular onde aquela garota está tirando fotos de si mesma, ela é tão linda com seus cabelos louros e olhos azuis, que inveja dela.

Quero viajar para outros países com realidades distintas da minha. Tenho absoluta certeza de que conhecer novos lugares iria preencher o espaço da felicidade em mim. Quem sabe eu me perca na cultura alheia, e assim eu possa me achar uma nova mulher, mais confiante e mais dona de si mesma. Onde moro é horrível mesmo, nem faculdade tem. Melhor, é eu ir beber água para afastar essa ideia, porque cerveja não tenho, e sei que de acordo com o anuncio na internet, cerveja trás bons companheiros para passar a noite e perder a dignidade, que de vez em quando não faz mal, não é? Os artistas apoiam o ato de pegar e não se apegar. Adoro viver na influencia dos atores bonitões.

Quero ficar magra, também. Ser gorda é chato. Os meninos me veem apenas como a fofinha amiga deles, mas eu quero alguém para namorar comigo, e ficar magra é a solução desse problema. Não acha? Ele, o Joãozinho, tem que me amar com meus ossos protuberantes, porque isso que é beleza, que eu desejo do fundo da minha alma!

Eu poderia ser feliz, se o mundo parasse de girar e morrêssemos sufocamos. Porque, enquanto vivermos assim aqui na Terra, meus dias estarão fadados ao fracasso, pois sei que nunca me tornarei o que eu quero, depois deles me fazerem querer ser o que eles querem que eu seja.

A vida era para ser simples, como olhar uma criança gargalhando no parquinho, entretanto, as crianças perderam a infância, meninas que já sabem diferenciar balões de preservativos, balançam seus próprios bebês nos braços e deixaram de lado as bonecas. Crianças que não sorriem mais porque são violentadas dentro de casa, dentro da escola, dentro delas mesmas. Fugir para o País das Maravilhas, ninguém quer mais. Os meninos perdidos largaram a Terra do Nunca porque lá não tinha Wifi. Pegaram o guarda-roupa que levava a Nárnia por falta de madeira para fazer palitos de picolé, já que todas as árvores se foram.

Suicídios são comuns, porque a vida perdeu a graça. Gente sem proposito, vivendo só por sobreviver, só por consumir. Pessoas vazias que se escondem atrás de telas touch screem, perderam a coragem de olhar nos olhos umas das outras. Todos reclamam a falta de amigos, não regam as poucas amizades que ainda possuem e nem tem ânimo para dar um ‘bom dia’ ao vizinho que não sabem nem o primeiro nome. Vamos provocar nossa overdose de drogas, pois tudo é licito.

Vou casar dez vezes, insistir e ter paciência numa relação não tem mais importância, e se eu engravidar, aborto, se eu ficar doente, morro nos corredores do hospital. Repito: A vida perdeu a graça! Quero rir, só que não posso, meus dentes estão amarelados pelo cigarro. E chorar é o que me resta, cansei de ser julgada por quem não busca me entender, vou me entupir de antidepressivos, odeio essas doenças ditas modernas!

Trás logo o apocalipse, o amor já esfriou, a fé acabou, a esperança foi embora. 


Escrito por: Tatielle Katluryn

P.S: Se puder, e quiser, deixe algo nos cometários, pode ser uma crítica, sugestão, elogio ou qualquer outra coisa. Vou adorar receber <3

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